quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

CANÇÕES MATERNAIS

Independente da idade, ficamos órfãos
 e  nos afastamos como menores abandonados.
                                                                                                            
                                                                          Adauto Barreto

Ainda ouço a tua voz de seda e de veludo
Entoando para mim cantigas de ninar.
Berce luzes que escutava, em embebecido e mudo,
Tal se fosse um pecado o canto teu parar.

A tua voz não tinha a rispidez do agudo
Era o leve da brisa em folhas a passar...
Ouvindo-te cantar eu esquecia tudo
e adormecia, então sob o teu olhar.

A vida continua, Ó Mãe, e sem o teu canto
Não sinto o sabor amargo do quebranto
Porque tuas canções estão nos meus ouvidos

Cerro os olhos e sinto o berço baloiçando,
E tu, Santa Velhinha, Amor de mãe entoando
Cantigas de ninar, baixinho nos meus ouvidos 

                       
                         1961

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

CORAÇÃO DE MÃE

                                                                

                               


Ama-me muitos? Um dia perguntava
Certa mulher vaidosa ao louco amante seu.
Amo-te muito sim! Não há paixão no mundo
Que possa comparar-se ao meu amor que é seu.

Mais que a tudo no mundo? Oh! jura-o!
Mais que a tudo.
E mais que a tua mãe? sim mais que a minha mãe
Prova-me já então...Mil provas que tu queiras
Juro que as darei, sou teu de mais ninguém!

Pois bem, corre depressa e vai a casa dela
Tira-lhe a vida e traz envolto no teu manto
E a palpitar ainda o coração materno
E assim poderei crer que o teu amor é tanto!

Corre a casa da mãe o filho alucinado
Mata-a de um golpe só, tira-lhe o coração,
Embrulha-o no seu manto, foge espavorido...
Criminoso penhor d'uma infernal paixão

Espavorido sai...na carreira tropeça
E tropeçando cai tão cegamente vem
 Machucou-se meu filho? ao monstro perguntava
Uma voz que saiu do coração da mãe.



DUAS METADES


Tua pergunta é das tais
que muito nos mortifica
Quem é que padece mais?
O amor que parte ou o que fica?

Se dizes que um amor parte
E que fica outro amor
Tanto uma e outra parte
Tem que sofrer igual dor!

E nem sempre as almas têm
Entre se desigualdade
As almas que se querem bem
Formam sempre igual metade

Por isso o amor se reparte
e assim seu caso se explica
Tanto sogre o amor que parte
Como sofre o amor que fica

                             
                                  (21-06-1946)

DESOLAÇÃO


Áurea Lemos

Triste com a lembrança do passado
Nas sombra do abandono doloroso,
Esse jardim há muito abandonado
Dorme com sono eterno e majestoso!

Se prefiro um infernal bailado,
Flores desfolha um voltear nervoso,
Esse jardim, há muito desprezado,
Vibra estremecer um gemer saudoso.

Quando eu desliso ali um passo incerto,
e triste olhos esse jardim deserto
Acho-o tristonho qual meu coração

Aqui também os vendavais da vida
Se lhe desfolham a ilusão querida,
E ele chorava também na solidão


           ( 19946)

RESIGNADA

                                                                                                                         

                                                                                                                   Flávio Rosal

Não maldigo, meu Deus o isolamento
Nem as tristezas deste mundo insano,
Pois a vida consiste em desenganos,
E sobre ele o voraz esquecimento.

Não maldigo se quer este tormento
Que me punge subtil e nem profano
D'aquele que se leva por engano,
Esquecendo da vida o sofrimento

Sigo a cumprir assim a lei do fado
Já não importa  o meu futuro estreito
E as estreitas desse meu passado...

Só maldigo, meu Deus , a triste sorte 
De viver neste mundo contrafeito
Inda ter em resumo a negra morte